sábado, 19 de junho de 2021

inacreditavel

 Fecho os meus olhos e te abraço na minha memória.

Ainda bem que tenho tantas memórias, porque preciso de socorro constantemente.
Eu quase consigo sentir sua mão tocando meus cabelos, enxugando a lágrima que rola pelo meu rosto... E os seus olhos cheios de fé e de vida, irradiando uma luz que ilumina toda a escuridão ao meu redor, e a sua voz tão linda e suave, tão meiga e tão amiga, tão envolvente me dizendo com tanta convicção que tudo vai ficar bem.
Nesse instante eu sinto paz de novo, nem que seja apenas por um segundo.
E nesse segundo eu sinto, pela primeira vez desde que você partiu, uma chama pequena e tímida, quase que instantaneamente se apagando mas que aquece o meu peito. E nesse segundo eu sinto que tudo vai ficar bem.
Até que o segundo passa, o instante acaba, a escuridão novamente me envolve, abro os meus olhos e o mundo ainda é o mesmo, o mesmo mundo que você deixou pra trás.
E nesse mundo onde você não está eu não sei se consigo mais acreditar que alguma coisa vai ficar bem.
Mas daquela chama que se apagou ainda vejo a fumaça se esvaindo no vento da tristeza que abate a minha alma.


quarta-feira, 14 de abril de 2021

desespero

 estou destruindo todos os rastros de quando eu tive esperança



 

 

adeus

quando olho para trás vejo que tudo foi 


um grande e lindo adeus. 




velhice

Hoje acordei me sentindo velha.

Mas não velha como são velhas as pessoas de mais idade, que tem o rosto marcado pela vida em forma de pele enrugada.
Acordei me sentindo velha, mas não como são velhas as pessoas as quais os corpos, gastos pelos anos, não funcionam como se deseja, e doem os ossos e caem os dentes e os cabelos.

A velhice que me abate hoje não é a mesma que recae sobre aqueles que precisam de remédios e cuidados diários para garantir a manutenção da máquina humana, enferrujada pelo passar do tempo.
Sinto uma velhice que não é aquela que esquece, lentamente, de toda uma vida vivida com lágrimas e lutas, e dores e alegrias, e que pouco a pouco a lembrança se esvai como uma foto antiga fica desbotada até perder toda a cor.

Sinto o cansaço, mas não o cansaço de quem batalhou toda uma vida e agora senta-se no balanço e olha as pessoas passarem enquanto lembra de como a vida era diferente antigamente.
Eu hoje acordei velha, mas não ranzinza como os velhos em que a vida abateu seus espíritos e agora não tem mais paciência para nada.
Essa velhez que em mim hoje cai é uma longitude imaginária, que distancia e separa dentro da minha cabeça todas as partes do que eu sou.

Essa velha que hoje estou, sente o peso de todos os meus anos, os que foram e os que virão, embora eu não saiba quantos.
É uma velhice na alma, que faz ranger meus dentes e me seca a boca.
É uma velhice passageira que vem me visitar em momentos vazios. Que traz consigo toda a sorte de remorsos, como todos os velhos tem.

E quando contemplo meu eu jovem, sorridente e cheia de sonhos, essa velha que em mim hoje resolveu brotar, não sabe mais o que é folgar.



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Silence


 Aquele silêncio que faz sua cabeça zunir

E que vibra tão alto que cala seus pensamentos

O silêncio que dói nos ossos,

Que se sente nas articulações.

Silêncio que franze a testa,

Que gela a espinha,

Que cauteriza o medo,

E que paraliza o caminhar.

Silêncio que é ponte e rio impetuoso

Que assusta e faz acalmar.

Silêncio que bate e abraça,

Silêncio que cega o olhar.

Esse silêncio cruel e amoroso,

Que se agarra à minha alma como quem quer casar,

Esse silêncio martírio dos meus dias,

Silêncio que eu tanto quis assassinar.

Agora o silêncio me olha, de um vazio profundo em que se abriga,

E sonda os meus sonhos, e me faz planos pra um futuro,

Onde silêncio algum não há.










quarta-feira, 20 de janeiro de 2021