quarta-feira, 14 de abril de 2021

velhice

Hoje acordei me sentindo velha.

Mas não velha como são velhas as pessoas de mais idade, que tem o rosto marcado pela vida em forma de pele enrugada.
Acordei me sentindo velha, mas não como são velhas as pessoas as quais os corpos, gastos pelos anos, não funcionam como se deseja, e doem os ossos e caem os dentes e os cabelos.

A velhice que me abate hoje não é a mesma que recae sobre aqueles que precisam de remédios e cuidados diários para garantir a manutenção da máquina humana, enferrujada pelo passar do tempo.
Sinto uma velhice que não é aquela que esquece, lentamente, de toda uma vida vivida com lágrimas e lutas, e dores e alegrias, e que pouco a pouco a lembrança se esvai como uma foto antiga fica desbotada até perder toda a cor.

Sinto o cansaço, mas não o cansaço de quem batalhou toda uma vida e agora senta-se no balanço e olha as pessoas passarem enquanto lembra de como a vida era diferente antigamente.
Eu hoje acordei velha, mas não ranzinza como os velhos em que a vida abateu seus espíritos e agora não tem mais paciência para nada.
Essa velhez que em mim hoje cai é uma longitude imaginária, que distancia e separa dentro da minha cabeça todas as partes do que eu sou.

Essa velha que hoje estou, sente o peso de todos os meus anos, os que foram e os que virão, embora eu não saiba quantos.
É uma velhice na alma, que faz ranger meus dentes e me seca a boca.
É uma velhice passageira que vem me visitar em momentos vazios. Que traz consigo toda a sorte de remorsos, como todos os velhos tem.

E quando contemplo meu eu jovem, sorridente e cheia de sonhos, essa velha que em mim hoje resolveu brotar, não sabe mais o que é folgar.



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Silence


 Aquele silêncio que faz sua cabeça zunir

E que vibra tão alto que cala seus pensamentos

O silêncio que dói nos ossos,

Que se sente nas articulações.

Silêncio que franze a testa,

Que gela a espinha,

Que cauteriza o medo,

E que paraliza o caminhar.

Silêncio que é ponte e rio impetuoso

Que assusta e faz acalmar.

Silêncio que bate e abraça,

Silêncio que cega o olhar.

Esse silêncio cruel e amoroso,

Que se agarra à minha alma como quem quer casar,

Esse silêncio martírio dos meus dias,

Silêncio que eu tanto quis assassinar.

Agora o silêncio me olha, de um vazio profundo em que se abriga,

E sonda os meus sonhos, e me faz planos pra um futuro,

Onde silêncio algum não há.










quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

quinta-feira, 9 de julho de 2020

sentidos

A vida vai requerer de você coragem.
Porque é preciso coragem para se viver.
Estar vivo é um exercício diário.
Não basta respirar, é preciso sentir.
Sentir é algo que pode ser bom e horrível.
Sempre bom sentir prazer, e a brisa que suave arrepia os pelos do corpo...
Agora sentir a dor... De um braço quebrado ou de um coração partido, é uma outra história.
E a gente se protege como pode da dor.
E alguns por tanto medo de sentir dor, já não querem sentir mais nada, e se anestesiam.
São covardes.
Porque viver é sentir.
E sentir é maravilhoso e assustador.

35 Beautiful Flower Quotes To Celebrate Life, Hope, And Love ...

quarta-feira, 6 de maio de 2020

entre nós a sós

A verdade é que estamos aterrorizados.
Alguns de nós estamos à beira de um ataque de nervos.
E estamos sós.
Não sabemos o que vai acontecer.
Não sabemos quando tudo vai acabar, se acabar, e como vai acabar.
Alguns de nós já se acabaram pelo caminho.
Devastação.
Esses somos nós.
E nós sentimos nossos corpos solitários tremer.
Sentimos o coração pular desordenado.
Sentimos o nó na garganta e o soco no estômago.
E nos sentamos tremendo, suados, molhados das lágrimas que já secaram nossos olhos e nossos ossos...
Nos sentamos diante de tudo aquilo que não podemos fazer.
E não há nada que possamos fazer.
A não ser sentir medo.
E ficarmos sós...
Alguns não temem.
Mas todos os que tremem sabem que eles não vêem o que nós medrosos vemos.
E o mais assustador é que nosso destino não nos pertence.

E esses somos nós.
E estamos sós...
Are they hands reaching our for help or waiting to … | Dark ...Unidos somente pelo medo que nos consome devagar.
O medo que viaja na incerteza e se move pelo ar invisível, porém real, assim como o vento.
E sentamos esperamos pelo destino, assistindo o desenrolar do caos e do show de horrores, torcendo para não sermos os próximos.
E não sabemos mais do que temos mais medo: de não sabermos o que vem pela frente, ou de não podermos fazer nada pelo que acontece no agora.
Nós estamos em silêncio.
Tão quietos que podemos finalmente ouvir ao vento.
Estamos inquietos, mas imóveis.
Tão inertes que podemos finalmente sentir o arrepio.
E estamos sós.

sábado, 2 de maio de 2020