domingo, 12 de abril de 2020

constatação # 10

nunca pensei que pudesse sentir tanto medo.


terça-feira, 24 de março de 2020

YOLO

Estavam todos tão preocupados em viver intensamente, que deixaram a vida passar sem perceber.
Não perceberam que a vida morava logo ali, naquele mínimo gesto ou movimento.
Não viram que a vida morava na pipoca estourando na panela enquanto o filme esperava em pausa para ser assistido por aquela mulher sozinha.
Que ali no estarem juntos observando o gato a brincar, e o sorriso que lhe trazia aos lábios, que aquilo era  vida.
Não perceberam que a vida esteve o tempo todo lá em sua plenitude.
No abraçar a quem se ama.
No cheiro de café fresco.
No pão quentinho saindo do forno, e a mesa rodeada de pessoas ansiosas por prová-lo.
No nervosismo e medo que dá antes de abrir o resultado do exame médico.
Nas notícias que vem de uma terra distante...
Na música que toca alto no rádio enquanto se organiza a casa.
Ou na música de piano que toca melancólica enquanto se sente saudade...
Na saudade que dá de quem já se foi.
Na esperança que enche o coração de repente.
Nas mãos sujas de tinta das crianças fazendo arte na aula.
Na brisa que balança o galho...
No gato estirado dormindo no sol que entra pela janela...
No cozinharem juntos.
No trocarem ideias.
Na taça de vinho que se bebe sentando na escada, sozinho.
No bate papo na mesa de um bar.
Na mensagem surpresa de alguém querido que não se vê há muito tempo.
No beijo no rosto... 
No aperto de mão...
Na mão que toca e aperta o ombro forte o suficiente pra encorajar e dar força.
No atravessar a rua para encontrar alguém que espera do outro lado.
No se encontrar nas catracas do metrô.
No cheiro gostoso do bebê recém nascido.
No olhar perdido que atravessa a janela.
No sol que se põe todo lindo sem esperar pelos aplausos, ou mesmo os olhares admirados.
No abraçar debaixo do cobertor para esquentar um ao outro.
No cachorro que deita na beirada da cama aquecendo os pés gelados.
Na raiva que dá quando alguém age de forma estúpida.
No perdão.
Na mensagem que não é enviada porque é melhor deixar pra lá.
No riso que invade o rosto quando se assiste alguém agir de forma desastrada.
Na palavra não dita.
No olhar que fala tudo o que precisa ser dito.
Na colher que raspa o fundo da panela ou da vasilha em que se fez o bolo.
Na farinha que dá massa ao pão.
Na coragem de dar o primeiro passo.
Na decisão de fechar a porta.
Naquele segundo em que se sabe que deve ir mas que ainda assim se quer olhar pra trás.
No deixar ir.
No seguir em frente.
No trem que atrasou.
No avião que pousou seguro.
Na pedra que nos faz tropeçar.
No chocolate quente...
No amar a quem não nos corresponde.
No coração partido.
No soprar das velas.
No ornamento que enfeita a árvore de Natal.
Na oração do coração aflito.
No se reconhecer humano.
No acordar a cada manhã...
Não perceberam que a vida morava logo ali, naquele mínimo gesto ou movimento.
Não perceberam que a vida esteve o tempo todo lá em sua plenitude porque estavam todos tão preocupados em viver intensamente, que deixaram a vida passar sem perceber.




domingo, 2 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

vanished

eRA UMA VEZ UMA MENINA QUE amava tirar fotos e que estava desaparecendo das fotografias...

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

há 4 anos...

Vi um homem puxando um desses aparelhos antigos de vídeo cassete. Ele puxava pelo fio, como se fosse um cachorro na coleira. As pessoas riam... Eu não.
Achei aquilo tão triste...


terça-feira, 25 de junho de 2019

adjetivos

Fico impressionada em como é tão fácil hoje em dia pra muita gente, usar adjetivos. 
Qualquer coisa é "sensacional", ainda que seja apenas uma coisa comum.
Muita gente sente a necessidade de ser rotulado com um adjetivo maravilhoso, espetacular.
Quando que para mim, só considero algo sensacional quando esse algo é realmente extraordinário.
E extraordinário pra mim é tudo aquilo que as palavras não conseguem descrever.
De resto, coisas simples são simples, e merecem adjetivos simples, comuns.
A vida se tornou um espetáculo, onde tudo o que se faz é visto e classificado, rotulado e adjetivado. 
É assim que começa a banalização de tudo.
Quando um simples filme medíocre, por exemplo, é rotulado como algo sensacional, atraindo assim a atenção de pessoas ingênuas e impressionáveis, a palavra "sensacional" perde o seu significado. De modo que quase nada mais me impressiona.
Você nunca sabe quando está prestes a ver algo realmente incrível e sensacional, ou apenas algo ridiculamente ordinário, do qual não vale a pena investir seu tempo assistindo.
Pensando melhor, não sei se é o processo de banalização, ou a sociedade do espetáculo apenas, ou se no final das contas, as pessoas é que perderam o senso crítico de vez.
Um mundo onde tudo é sensacional e incrível, e nada tem nenhum sentido.
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